Capítulo 1: O Segundo Pedreiro
Obs: a leitura dá pra ser feita no tempo de ouvir a música Ordinary, Alex Warren. Você consegue sincronizar a leitura com o tempo da música?
— Denis Neves Fróes Junior - Psicólogo - CRP 06/232893
Eu fui o segundo pedreiro por muito tempo...
Você conhece a história: três homens, cortando pedra, pedra vem, ele corta e pedra vai. O primeiro faz isso por obrigação... é o que os pais dele faziam, os avós e toda a sua família. Ele vai fazer isso e o filho dele vai fazer isso também. O segundo faz isso porque é o que traz comida para a sua mesa... é o que paga a escola dos seus filhos e uma casa linda para ele e a sua família. O terceiro está construindo um legado, uma catedral, que vai permanecer erguida por séculos, e que as pessoas vão encontrar paz de espírito.

Eu sabia qual catedral eu queria construir... isso desde o meu primeiro emprego na Engesmo Brasil - Engenharia de Segurança e Medicina Ocupacional Ltda. Foi uma experiência maravilhosa, pouco após o término do ensino médio, entendendo os riscos de um trabalhador que sobe em um andaime todos os dias com o risco de cair e... morrer... acontece, sabia?
Eu tive que passar muito tempo construindo as paredes das catedrais de outras pessoas... e não foi ruim, eu fui bem pago, eu fui competente e realizei o melhor trabalho que eu pude. Mas uma coisa tava certa... eu estava completamente anestesiado.
Eu não acredito que teve que passar tanto tempo para eu utilizar os meus conhecimentos de tecnologia para criar um gráfico que registrasse o meu próprio humor. Eu tive que construir toda uma plataforma de saúde mental em volta de mim para entender que a resposta estava ali, na frente dos meus olhos o tempo todo... eu não estava feliz.
E foi aí que eu me lembrei de uma oncologista que apareceu para mim um dia, do nada, no Youtube, e tremeu o meu chão... é uma palestra pela Dra. Rachel Naomi Remen para a Universidade da Califórnia: The Art of Living Every Minute of Your Life... simples assim... a arte de viver cada minuto da sua vida... e ela conta como histórias são o que nos fazem humanos, e que atualmente, as pessoas não se sentam mais ao redor de uma mesa para contar histórias de suas infâncias, ou de 2 semanas atrás, ou sequer revisam o dia que tiveram antes de dormir.
Em uma das histórias, Dra. Rachel fala sobre um médico que ela ofereceu um programa simples: um diário de gratidão. Era um diário em que você pegava 10 minutinhos antes de dormir e escrevia três coisas:
- O que me surpreendeu hoje?
- O que me tocou o coração hoje?
- O que me inspirou hoje?
O médico, cético, tentou. Quatro dias depois, ligou para ela frustrado: "Rachel, qual é o truque? Porque a minha resposta tem sido a mesma nos últimos quatro dias: nada, nada e nada! Como eu posso ser tão ocupado e ter uma vida tão vazia?"
Rachel perguntou se ele estava vendo a sua vida como médico. Ele afirmou com vigor: "Oras, eu sou um médico... claro que estou vendo como médico!"
Ela disse: "Não. Você precisa olhar para a sua vida como se fosse um escritor... um jornalista documentando a própria história."
O médico olhou com indiferença, disse "ok" e foi embora. Rachel não soube mais dele por meses.
Quando ele voltou, veio para agradecer! Ele contou que, no começo, só conseguia enxergar as coisas 7 horas depois que elas tinham acontecido... percebia à noite algo que tinha sido marcante às 9 da manhã. Mas o intervalo foi fechando. Ele foi fechando, porque
Enxergar significado é uma capacidade, e você a desenvolve como um músculo.
— Dra Rachel Naomi Remen
E, então, algo silencioso aconteceu: sem dizer uma palavra a ninguém, as pessoas começaram a falar com ele de forma diferente. Seus pacientes passaram a mandar fotos das suas vidas após as cirurgias. Começaram a chamá-lo para celebrar o fim de uma quimioterapia. E ele disse: "eu entendo agora o que eu sou capaz de fazer. E estou muito feliz por poder fazer isso."
Ele saiu da medicina como o segundo pedreiro, e voltou como o terceiro.
O segundo pedreiro também responderia "nada, nada e nada." Não porque a vida dele seja vazia, mas porque ele aprendeu a medir os dias em tarefas concluídas, contas pagas, problemas resolvidos. Ele perdeu a capacidade de ver a própria história acontecendo.
Eu era esse médico...
Eu era esse pedreiro...
E demorei mais tempo do que gostaria de admitir para perceber.
O médico praticava o diário olhando para trás, como um remador que só consegue ver o que já passou. É tudo que ele podia fazer. Mas foi justamente aí que o músculo foi sendo construído. Noite após noite, procurando ativamente o que surpreendia, o que tocava e o que inspirava.
E, então, aconteceu a virada de chave.
Ele não virou pra frente... remadores não viram... mas o músculo que ele construiu olhando para trás afiou tanto o seu olhar, que ele começou a sentir o que estava chegando antes mesmo de ver. Deixou de encontrar significado horas depois. Passou a vivê-lo no momento em que acontecia.

Dra. Rachel tem uma frase que não consigo tirar da cabeça:
A maioria de nós tem um lugar na primeira fila da própria vida, e está sentada nessa primeira fila com os olhos fechados.
— Dra. Rachel Naomi Remen
O diário não muda o assento. Ele abre os olhos.
Eu construí uma plataforma inteira para ajudar pessoas a fazer isso, e só entendi o porquê quando precisei usar ela em mim mesmo.
Se você quiser entender como isso funciona na prática; a matemática dos 10.030 minutos, a ciência por trás do trabalho entre sessões; eu escrevi sobre isso aqui.
O Capítulo 2 é sobre o que eu vi quando os olhos abriram.
Iai? Deu certo com a música? Talvez a música acabou antes se você gosta de absorver cada palavra... talvez a música acabou depois porque você estava ansioso para chegar logo no final.
— Denis Neves Fróes Junior - Psicólogo - CRP 06/232893
Não importa! O que importa é a jornada... os segundos que você leu enquanto a música tocava. Muito obrigado se chegou até aqui genuinamente!
Agora, vai aproveitar a próxima música que começou na playlist ;)
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