Conexão Real num Mundo de Likes
Nunca estivemos tão conectados. E, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão sozinhos.
Você tem centenas, talvez milhares de amigos nas redes sociais, mas hesita em ligar para alguém quando a angústia aperta. Recebe dezenas de likes numa foto, mas ainda se sente invisível. Constrói um feed que exibe uma vida incrível, mas, por trás da tela, se pergunta por que não se sente tão incrível assim.
As redes sociais prometeram um mundo de proximidade. O que elas entregaram foi algo diferente: uma vitrine global onde todos performam suas melhores versões, enquanto a sensação de vazio cresce silenciosamente. Se você já se pegou rolando o feed com a sensação de que está perdendo alguma coisa ou, pior, que está se perdendo de si mesmo, este texto é para você. Não para demonizar a tecnologia ou propor um detox digital radical, mas para olharmos com honestidade para o que está acontecendo e para o que podemos fazer a respeito.
O Que Está Acontecendo Conosco?
Não é apenas uma sensação; os números confirmam que algo profundo mudou na última década. Desde 2010, os índices de ansiedade e depressão entre jovens dispararam em mais de 100% [1]. Não é coincidência que este período corresponda exatamente à popularização dos smartphones e à ascensão de plataformas visuais como o Instagram. No Brasil, o cenário é ainda mais intenso: somos o segundo país que mais passa tempo online no mundo, com uma média de 9 horas e 13 minutos por dia [2].
Um estudo recente do Instituto Cactus e AtlasIntel revelou que 43,5% dos brasileiros que passam mais de três horas diárias em redes sociais receberam um diagnóstico de ansiedade [3]. O problema não é o uso, mas a dose e a forma. A pesquisa de Jonathan Haidt, autor de The Anxious Generation, mostra que meninas que usam redes sociais por mais de cinco horas diárias têm uma probabilidade 38,1% maior de apresentar sintomas de depressão, em comparação com 15,1% para aquelas que usam por até uma hora [1].
Isso acontece porque as redes sociais são desenhadas para explorar vulnerabilidades humanas. Elas nos expõem a um fluxo incessante de comparação com vidas cuidadosamente editadas, alimentando a sensação de que nunca somos, temos ou fazemos o suficiente. A validação, que deveria vir de dentro, passa a depender de métricas externas: likes, comentários, seguidores. E isso não afeta apenas os adolescentes. Afeta o profissional que compara sua carreira no LinkedIn, a mãe que se sente inadequada ao ver o palco da maternidade perfeita no Instagram e o casal que questiona seu relacionamento ao ver as declarações de amor performáticas de outros.
Isso não é uma falha de caráter sua. É o resultado de um sistema projetado para prender sua atenção, custe o que custar.
O Self que se Perdeu na Performance

Para entender o impacto psicológico disso, podemos recorrer a Carl Rogers, um dos psicólogos mais influentes do século XX. Ele propôs que nossa saúde mental depende da congruência entre o Self Real (quem realmente somos, com nossas forças e fraquezas) e o Self Ideal (quem aspiramos ser). Quanto mais próximos esses dois estão, mais autênticos e satisfeitos nos sentimos [4].
As redes sociais introduziram um terceiro elemento perigoso nessa equação: o Self Performático. É aquela versão editada, filtrada e cuidadosamente curada de nós mesmos, projetada para maximizar a aprovação alheia.
| Self Real | Self Ideal | Self Performático (O Eu das redes) |
|---|---|---|
| Quem você é | Quem você quer ser | Quem você finge ser para likes |
| Privado e complexo | Aspiracional e motivador | Público e editado |
| Com falhas e vulnerabilidades | Com metas de crescimento | Aparentemente "perfeito" |
O problema é que o Self Performático é recompensado. Cada like, comentário e novo seguidor é um pequeno reforço positivo que nos diz: "Continue assim". E, lentamente, começamos a confundir essa versão fabricada com nossa identidade real. O Self Real, com todas as suas nuances e imperfeições, fica soterrado, desconhecido até para nós mesmos. A distância entre quem somos e quem mostramos ao mundo aumenta drasticamente, e é nesse abismo que a ansiedade, a depressão e a sensação de vazio florescem.
Começamos a nos fazer perguntas que antes não faziam sentido: "Quem sou eu quando não estou sendo visto? Do que eu realmente gosto, para além do que o algoritmo me sugere? Quais são os meus valores, e não apenas os que são populares esta semana?". A identidade deixa de ser uma descoberta e passa a ser uma imitação.
A Presença que Falta em Nossas Relações

Essa desconexão de nós mesmos inevitavelmente transborda para nossas relações. Estamos fisicamente presentes, mas mentalmente ausentes, com nossa atenção capturada pela tela.
Esse fenômeno, conhecido como phubbing (uma mistura de phone e snubbing, ou esnobar), tornou-se a norma. Uma pesquisa alarmante revelou que 87% dos filhos de brasileiros se sentem descontentes com o uso excessivo de celular por parte de seus pais 5 . Quando uma criança precisa competir com um dispositivo pela atenção de quem ela mais ama, ela internaliza uma mensagem devastadora: "O celular é mais interessante do que eu". Isso não apenas gera ansiedade e problemas de apego, mas ensina a próxima geração a replicar o mesmo padrão de presença ausente.
O mesmo acontece entre casais, onde conversas são interrompidas por notificações e a intimidade é fragmentada pelo scroll infinito. E entre amigos, que se reúnem ao redor de uma mesa, mas permanecem isolados em seus próprios universos digitais. Estamos perdendo a arte da escuta ativa, do silêncio compartilhado e da conexão que só o contato visual genuíno pode proporcionar. Como podemos nos conectar verdadeiramente com outra pessoa se não conseguimos nem nos conectar com nós mesmos?
O Caminho de Volta para a Conexão Real
Reconhecer o problema não significa que a solução seja deletar todos os seus perfis e viver como um eremita digital. As redes sociais fazem parte do nosso mundo. A questão fundamental é: você as usa ou é usado por elas?
A mudança começa com a consciência. Com pequenas perguntas feitas a si mesmo:
- Como eu me sinto depois de passar 30 minutos no Instagram? Energizado ou esgotado?
- O que estou buscando ao abrir este aplicativo agora? Conexão genuína ou uma distração para não lidar com um sentimento desconfortável?
- Quando foi a última vez que fiquei sozinho comigo mesmo, em silêncio, sem nenhuma tela como companhia?
A partir daí, podemos introduzir pequenos movimentos de reconexão. Estabelecer momentos livres de celular, como durante as refeições. Praticar uma conversa por dia com atenção plena, deixando o telefone de lado. Perceber o impulso de pegar o celular para fugir do tédio ou da ansiedade e, em vez disso, apenas respirar e observar o que está acontecendo internamente.
O antídoto para a validação superficial das redes é buscar relações onde você é aceito como é, sem a necessidade de performance. Um espaço para descobrir quem você é, para além dos filtros. Alguém que te escute de verdade. Às vezes, o caminho de volta para si mesmo precisa de companhia. Não para te dar respostas, mas para te ajudar a encontrar as suas.

Um Espaço para Ser Você, de Verdade
É exatamente esse espaço que a Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, busca oferecer. Ela é o contraponto perfeito para a lógica das redes sociais.
| O que as redes oferecem | O que a terapia centrada na pessoa oferece |
|---|---|
| Validação condicional (likes) | Aceitação incondicional |
| Self performático | Espaço para o self autêntico |
| Comparação constante | Foco no seu autoconceito |
| Superficialidade e distração | Escuta ativa e profunda |
| Julgamento e cancelamento | Ambiente seguro e sem julgamento |
Meu nome é Jaqueline Balduino (CRP 06/226117), e como psicóloga especialista na Abordagem Centrada na Pessoa, meu trabalho é focado em ajudar pessoas a fortalecerem sua autoestima e a reencontrarem sua identidade. Eu ofereço um ambiente de escuta ativa, de presença genuína e de aceitação incondicional, onde você não precisa performar ou editar quem você é. É um espaço para você se despir das expectativas, explorar seus sentimentos reais e redescobrir o que te move, para além dos likes.
As redes sociais não vão desaparecer. Mas a sua relação com elas e, mais importante, com você mesmo, pode mudar. Talvez seja a hora de se perguntar: quem sou eu quando ninguém está olhando? O que eu sinto quando ninguém está curtindo? Reconectar-se consigo mesmo não é um processo instantâneo, mas acontece. Com presença, com escuta e com um espaço seguro para ser quem você é, sem filtros.
Se algo neste texto ressoou em você, eu estou aqui para uma conversa. Sem compromisso, sem pressa. Apenas um espaço para você ser ouvido de verdade. Porque talvez o que você mais precise não seja de mais likes, mas de alguém que te veja de verdade.
Para saber mais ou agendar uma conversa inicial com Jaqueline Balduino, entre em contato
— TerapiaConecta
Referências
[1] Haidt, J. (2024). The Anxious Generation: How the Great Rewiring of Childhood is Causing an Epidemic of Mental Illness. Allen Lane.
[2] DataReportal. (2024). Digital 2024: Global Overview Report.
[3] Instituto Cactus & AtlasIntel. (2024). Panorama da Saúde Mental no Brasil
[4] Rogers, C. R. (1961). On Becoming a Person: A Therapist's View of Psychotherapy.Houghton Mifflin.
[5] AVG Technologies. (2015). Digital Diaries Study.
Precisa de apoio profissional?
Conecte-se com psicólogos licenciados, no seu ritmo e sem pressão.
Encontrar terapeuta