Negociar direto com quem paga
Eu cobrava R$ 100
Atendi no formato online, a cem reais a sessão. Esse mês, a clínica me rendeu R$ 400. Já atendi por convênio por R$ 20 a sessão, recebendo depois de 60 dias um total de R$ 600 no melhor mês.
Uma coisa eu não duvido: não foi por falta de gente precisando de terapia, mas um ponto que parece ter influenciado é o valor que quem precisa consegue pagar, e o valor que eu precisava receber para viver não estava batendo. Eu negociei direto com cada paciente, sem intermediário, sem tabela, sem sindicato. Exatamente como manda a cartilha de quem defende que trabalhador e patrão devem se acertar sozinhos.
O resultado da negociação livre foi eu sair.
Hoje programo. Em um mês, o código me pagou mais do que a clínica me pagaria em sete. Construí, inclusive, uma plataforma pra psicólogos, com comissão de quinze reais por sessão, pensada para que o profissional ficasse com quase tudo, escolhendo o preço que quisesse cobrar. A plataforma existe... você provavelmente está lendo isso nela... porém, ela ainda não me rendeu um centavo... e não é porque faltem psicólogos ou pacientes. É porque o preço em que os dois se encontram não paga a vida de um psicólogo.

A proposta que está na mesa
Terminou o primeiro turno e uma das ideias que mais ganhou voto é bem gritante: deixar empregado e empregador negociarem diretamente as condições de trabalho. Horário, jornada, talvez mais. Menos regra, mais acordo entre as partes.
A crítica a essa ideia também é simples: numa negociação entre duas partes desiguais, quem precisa mais cede mais. O empregado precisa do salário no fim do mês. O empregador precisa daquele empregado específico bem menos do que isso. "Acordo livre" entre os dois tende a ser o preço que o lado mais fraco aceita para não ficar sem nada.
Eu acredito na crítica. Acho que a proposta é BS. Mas acreditar não é saber, e eu tenho um jeito de testar.
A terapia já é esse experimento

Pense no que é uma sessão de terapia particular. Não existe CLT entre mim e meu paciente. Ele é, na prática, meu patrão: decide se me contrata, por quanto, por quanto tempo. Eu decido se aceito. Não há piso *coff coff*, não há tabela obrigatória *coff coff*, não há ninguém no meio. É a negociação direta em estado puro, e ela acontece milhares de vezes por dia no Brasil há decadas.
Se a negociação livre entre partes desiguais produz acordos justos, a terapia particular deveria ser um mercado onde psicólogos vivem bem e pacientes pagam o que podem. Se não produz, deveria ser um mercado onde quem tem alternativa vai embora e quem não tem aceita o que der.
Eu sou um dado desse experimento. Fui embora. Tenho filha e contas de casa pra pagar, e elas não esperam "o meu público crescer"
O que eu vou medir
Fiz uma página: quanto-custaria . Cinco perguntas, sem cadastro.
Quem faz terapia, já fez ou gostaria de fazer diz quanto conseguiria pagar por mês, e com que frequência iria. Quem é psicólogo diz o mínimo que aceitaria por sessão, quanto cobra hoje e, se já atendeu por aplicativo, quanto recebia por sessão lá. Tudo vira valor por sessão, e a página coloca os dois lados no mesmo gráfico.
Depois de responder, você vê onde o seu valor cai em relação ao outro lado. Quando os dois lados tiverem pelo menos vinte respostas, abrem as medianas, as faixas e a pergunta que importa: existe um preço em que as duas curvas se cruzam?
Não vou chamar isso de pesquisa. Quem responde escolheu responder, e boa parte vai chegar aqui por um vídeo sobre política. É uma enquete aberta. Mostra o que esse grupo disse, e só isso. Mas é mais do que a opinião que eu tenho hoje...
O que eu acho que vai acontecer, por escrito, antes
Essa é a parte que me obriga a ser honesto. Escrevo a previsão agora, antes do primeiro dado, pra não poder ajustar a história depois.
Eu aposto que:
- A mediana do que os pacientes conseguem pagar vai ficar entre R$ 60 e R$ 100 por sessão.
- A mediana do piso dos psicólogos vai ficar entre R$ 150 e R$ 200.
- A distância entre as duas medianas vai ser maior que R$ 60
- O repasse que psicólogos dizem receber de aplicativos vai ficar abaixo do piso que eles próprios declaram. Ou seja: o mercado "se adaptou", mas se adaptou contra quem atende.
O que me faria mudar de ideia: se as curvas se cruzassem num preço em que, pelo menos, um terço dos psicólogos aceita atender, e pelo menos um terço dos pacientes consegue pagar. Eu escrevo o segundo artigo dizendo que estava errado: que existe um acordo possível, sem ninguém no meio, que serve dos dois lados. Se a distância entre as medianas ficar abaixo de R$ 40, idem.

Se o resultado ficar no meio, também digo. A promessa é publicar o que sair, não o que eu quero.
Por que isso importa fora da terapia?
Porque a resposta "o mercado se auto regula" é verdadeira e vazia ao mesmo tempo. O mercado sempre se regula. A pergunta é quem paga o ajuste. Na terapia, pelo que eu vi de perto, o ajuste foi pago por quem atende: ou cobrando o que não paga as contas, ou saindo. Quero saber se os números dizem a mesma coisa que a minha vida disse.
E quero saber com você, dos dois lados da mesa. Se você faz terapia, diz quanto cabe no seu mês. Se você atende, diz o mínimo que aceita. Leva dois minutos, e no final a página te mostra onde você está.
Responder: quanto custaria uma sessão?
O segundo artigo sai quando os dois lados chegarem a vinte respostas, com os gráficos, com a previsão acima ao lado do que deu, e com a conclusão que couber.
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