← Voltar ao blog
Psicologia Infantil Identidade e Autoconhecimento Bem-estar e Cotidiano Terapia na Pratica

Seu filho tem tudo... menos o que ele realmente precisa

Denis Neves Fróes Junior

Denis Neves Fróes Junior

Abordagem Centrada na Pessoa

Você olha para o quarto do seu filho. Tem tudo ali: o celular de última geração, o videogame, o monitor, o tablet... ele tem mais tecnologia naquele quarto do que você teve durante a infância inteira. E você trabalha pra isso... faz hora extra, pesquisa preço, se desdobra... porque quer dar a ele o que você não teve.

E, mesmo assim, as notas estão caindo... ele não quer fazer nada. Quando você tenta conversar, ele explode ou se fecha. Já gritou coisas que você nunca imaginou ouvir do seu próprio filho... já destruiu coisas em casa num acesso de raiva que te deixou sem chão. Você está investindo em reforço escolar, acompanhamento e, em certos casos, até medicação. Está fazendo tudo que te orientaram a fazer.

E nada muda...

Até que, em um momento de silêncio... daqueles que acontecem quando a casa finalmente para... ele diz algo que te destrói por dentro: "Ninguém me ama!"

E você fica ali... paralisada... porque você está ali, presente, pagando, fazendo tudo! Como é possível que ele sinta isso?

Se essa cena parece familiar demais, este texto é para você! Não para te culpar, porque você já carrega peso o suficiente, mas para te mostrar algo que pode mudar a forma como você enxerga tudo: e se o problema não estiver onde todo mundo está procurando?

A geração que tem tudo e não tem nada

Para entender o que está acontecendo com o seu filho, é preciso enxergar o mundo em que ele nasceu. Porque não é o mesmo mundo em que você cresceu, e a distância entre os dois é maior do que parece.

A geração alpha (crianças nascidas a partir de 2010) é a primeira da história a crescer completamente imersa em telas desde o nascimento. No Brasil, mais de 93% das crianças entre 9 e 17 anos acessam a internet regularmente [1]. Quase metade das crianças de 0 a 12 anos já possui um smartphone próprio [2]. E nós, como o país Brasil, somos o segundo do mundo que mais passa tempo online: uma média de 9 horas e 13 minutos por dia [3].

Isso não é número abstrato. Isso é o ambiente em que o seu filho está se formando como pessoa.

Em 2025, o governo brasileiro aprovou duas leis sem precedentes: a Lei 15.100, que proibiu o uso de celulares nas escolas [4], e a Lei 15.211, que regulamenta a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais [5]. Em março do mesmo ano, o Ministério da Saúde lançou um guia nacional com recomendações de tempo de tela por faixa etária [6]. Isso não é pânico moral de pais conservadores, mas sim uma resposta institucional a uma crise que já está acontecendo.

E se você não sabe o que é Skibidi Toilet, Tralalero Tralala, ou o que significa quando o seu filho usa as palavras "sigma" e "rizz", você está vendo apenas a superfície de um oceano digital onde ele navega horas por dia. O termo brain rot (i.e. cérebro apodrecido), foi eleito a palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford, descrevendo o efeito do consumo excessivo de conteúdo trivial e hipnótico na internet [7]. Não é uma piada, é o que está acontecendo com a atenção, a motivação e a capacidade de concentração de uma geração inteira (e com fortes indícios de seguir para as próximas gerações).

Mas, aqui está o que ninguém diz, e que muda tudo:

O problema não é a tecnologia em si, mas sim o que ela está substituindo!

Imagem do artigo

O iPhone não abraça

Existe um mecanismo silencioso que acontece em milhões de lares brasileiros, e que ninguém percebe enquanto está acontecendo.

Quando os pais, seja por trabalho, ou cansaço, falta de repertório emocional, ou simplesmente porque ninguém os ensinou que isso era um problema, começam a substituir presença por objetos, algo se rompe. O celular novo vira compensação por ausência... a TV no quarto vira a babá silenciosa... o acesso ilimitado à internet vira a solução para "ele ficar quieto e me deixar respirar". Não é maldade! É sobrevivência em um mundo que exige demais de todo mundo.

Mas a criança registra algo diferente...

Existe um fenômeno chamado phubbing (a junção de phone com snubbing [esnobar]). É o que acontece quando uma mãe está fisicamente presente, mas com os olhos no celular. Uma pesquisa revelou que 87% dos filhos de brasileiros se sentem descontentes com o uso excessivo de celular por parte de seus pais [8]... oitenta e sete por cento! Isso significa que, na grande maioria dos lares, as crianças estão competindo com um dispositivo pela atenção de quem elas mais amam no mundo.

E quando uma criança compete com uma tela e perde, ela internaliza uma mensagem devastadora:

O celular é mais interessante do que eu!

Uma meta-análise publicada em 2025, envolvendo 21 estudos e quase 15 mil participantes, encontrou que o uso de tecnologia pelos pais na presença dos filhos está negativamente associado ao desenvolvimento cognitivo, ao apego e ao comportamento prosocial das crianças, e positivamente associado a problemas emocionais e comportamentais [9]. Os números são claros! Não é opinião, é ciência!

E, então, se instala um ciclo vicioso que se retroalimenta: os pais, sem tempo ou sem saber como estar emocionalmente presentes, oferecem tecnologia. A criança se isola na tecnologia. Os pais observam: "ele só quer ficar no celular." Tentam mais uma solução externa: reforço escolar, acompanhamento cognitivo, medicação. Nada funciona... e o ciclo se aprofunda.

Aquela criança inteligente que está tirando notas baixas não tem um problema de memória... não tem um problema cognitivo... ela tem um problema de motivação. E motivação é filha do vínculo! Uma criança que não se sente genuinamente vista não encontra razão para se esforçar.

Por que se dedicar a algo se ninguém vai realmente olhar?

E a raiva que explode, os objetos quebrados, os gritos, a agressividade que parece desproporcional, muitas vezes não é o transtorno. É a linguagem de uma criança que nunca aprendeu a processar frustração, porque nunca teve um adulto genuinamente presente e atento ensinando isso, no dia a dia, com o olhar. A raiva é o último recurso de quem não consegue dizer:

Eu estou com dor...

Isso não é culpa sua! É o sistema em que estamos vivendo... um sistema que cobra produtividade o dia inteiro, e não ensina ninguém a estar emocionalmente presente. Mas agora que você sabe, pode começar a mudar.

O diagnóstico que não resolve

Aqui está um cenário que tenho visto se repetir: a criança começa a apresentar comportamento desafiador, queda nas notas, explosões emocionais... os pais procuram ajuda... a criança recebe um diagnóstico (TDAH, TEA, TOD, ou combinação de diversas siglas)... recebe medicação... é colocada em reforço escolar e acompanhamento cognitivo. Os pais investem pesado: tempo... dinheiro... esperança...

E o resultado é mínimo... ou temporário... ou os dois

Por quê?

Porque diagnósticos, como descritos acima, são descritivos, não explicativos. Eles dizem o que a criança está fazendo, mas não dizem por que ela está fazendo. São rótulos/etiquetas para comportamentos, não para causas. E a pesquisa mostra algo que poucos profissionais discutem abertamente: esses diagnósticos são frequentemente confundidos com problemas de apego [10]. Crianças com histórico de vínculo inseguro apresentam sintomas que se sobrepõem a TDAH, TEA, TOD: desatenção, impulsividade, desafio à autoridade, dificuldade de regulação emocional.

Quando uma criança com ferida de apego é tratada como se tivesse apenas um transtorno comportamental, o risco é real: ela pode receber estratégias punitivas que pioram a confiança, aprofundam o isolamento e reforçam exatamente o padrão que precisaria ser reparado [11].

A analogia que uso é simples:

Investir em reforço cognitivo para uma criança com ferida de apego é como prescrever exercício de corrida para alguém com uma fratura no pé.

Não é que o exercício seja ruim, mas ele está focado no problema errado.

Isso não significa que todo diagnóstico é equivocado, nem que medicação ou acompanhamento cognitivo sejam inúteis. Significa que eles são complementares ao trabalho vincular, não substitutivos. A criança precisa primeiro sentir que é vista, amada e segura, para depois conseguir aprender, se concentrar e regular suas emoções. Sem essa base, qualquer outra intervenção constrói em cima de areia.

Você investiu porque se importa. Isso está claro! Agora é hora de adicionar a peça que faltava!

O que seu filho realmente precisa

Existe um problema com a terapia tradicional quando aplicada a crianças e adolescentes da geração alpha.

"Senta aqui e me conta como você está se sentindo." Essa frase que funciona perfeitamente com adultos, gera uma de duas reações num adolescente que cresceu no mundo de estímulos de 15 segundos: ou ele se fecha, ou ele não volta. E, quando o histórico já inclui experiências ruins com profissionais de saúde mental, o que é mais comum do que parece nessa geração, a resistência é ainda maior!

A primeira sessão é tudo! Se a criança sai pensando "mais um adulto que não me entende", a janela se fecha, e os pais perdem a esperança mais uma vez.

É por isso que a minha abordagem é diferente.

Eu trabalho com ludoterapia integrada à tecnologia. Não porque acho que tecnologia é a resposta, mas porque ela é a linguagem dessa geração. Quando eu uso um dispositivo de realidade virtual numa sessão de arte terapêutica, ou um dispositivo EEG que possibilita o indivíduo a mover um cubo apenas com a força da mente, ou ensino um adolescente a jogar Go (um jogo milenar que exige pensamento estratégico, tolerância à frustração e presença total), eu não estou "brincando de psicólogo". Eu estou encontrando a criança no mundo dela, falando a língua que ela entende, para poder trazê-la de volta.

Eu sei o que é Skibidi Toilet. Eu entendo por que o Roblox importa para ele. Eu conheço a diferença entre "sigma" e "beta" no vocabulário do seu filho. Não porque eu ache essas coisas boas ou ruins, mas porque para ajudar alguém, você precisa primeiro entender o mundo em que essa pessoa vive.

Quando uma criança me ensina algo (uma mecânica de jogo, uma gíria, um meme), ela inverte a dinâmica de poder. Ela deixa de ser "o paciente" e se torna alguém que tem algo a oferecer. Isso, por si só, é terapêutico/poderoso para uma criança que se sente sem controle sobre a própria vida.

Virginia Axline, uma das pioneiras da ludoterapia, descreveu algo que eu vi acontecer na minha própria prática: quando você apresenta à criança um espaço onde ela é a pessoa mais importante, onde ela toma a liderança, decide o que acontece, sem ordens, sem recriminações, sem a intrusão dos adultos, algo muda. A criança descobre que pode colocar para fora seus sentimentos de tensão, frustração, agressividade e medo através do brincar, da mesma forma que um adulto faz através da fala [13].

O brinquedo se torna um condutor de autoexpressão

Eu vi isso acontecer de forma marcante com uma criança que, durante as sessões, começou a usar personagens do filme Divertida Mente para expressar o que não conseguia dizer com palavras. A Raiva voltava sempre! Não porque a criança fosse agressiva, mas porque era a única emoção para a qual ela tinha linguagem. Quando trabalhamos juntos o reconhecimento das outras emoções, usando os próprios personagens que ela já conhecia (a Tristeza, o Medo, a Alegria), algo se abriu. Ela começou a nomear o que sentia... e quando uma criança consegue nomear o que sente, ela para de precisar explodir para ser ouvida. Como aponta Daniel Siegel, esse reconhecimento emocional é o que permite à criança funcionar de forma integrada [14].

Imagem do artigo

Esse é o poder da ludoterapia: não é brincar por brincar, é dar à criança (e até ao adulto) uma ferramenta para se libertar do que carrega, num espaço onde, pela primeira vez, ela não está sendo avaliada, corrigida ou ignorada.

Mas a sessão é apenas o começo. Uma semana tem 10.080 minutos. Uma sessão dura 50. Sobram 10.030 minutos, e é ali, no dia a dia, que a mudança real acontece. Por isso, meu trabalho não é só com a criança. É com o sistema familiar. Orientar os pais sobre como criar momentos de presença genuína: olho no olho, sem tela. Como reestruturar a rotina digital sem virar "o inimigo", como reparar, aos poucos, o vínculo que se desgastou.

E existe uma coisa que eu defendo com convicção clínica: nos primeiros passos, a terapia precisa ser presencial! Não se reconstrói o vínculo com uma criança da geração alpha através de uma tela (que é justamente o meio que está contribuindo para o problema). A presença física, o olhar direto, o espaço compartilhado, a prosódia... isso comunica algo que nenhuma videochamada consegue:

Você importa o suficiente para eu estar aqui, de verdade, com você!

Imagem do artigo

O caminho de volta

A boa notícia (e ela é genuína) é que as crianças são neuroplásticas. O cérebro delas está em construção. Isso significa que o vínculo pode ser reparado. A regulação emocional pode ser aprendida. A motivação pode voltar. O caminho de volta existe!

Mas ele começa com uma mudança de perspectiva:

Parar de tentar "consertar" a criança e começar a reconstruir a relação

Três movimentos que você pode fazer hoje (pequenos, mas poderosos):

  • Uma refeição por dia sem nenhum celular na mesa. De ninguém, inclusive o seu! Parece simples, mas não é. E cada vez que seu filho te vê guardar o celular voluntariamente, ele registra: "eu sou mais importante que aquilo."
  • 15 minutos de atenção exclusiva. Olho no olho, sem tela, fazendo algo que ela escolheu! Não precisa ser educativo e nem produtivo. Pode ser um jogo, uma conversa sobre nada, uma caminhada. O que importa é a presença! Total! Sem dividir com notificações
  • Pergunte, sem julgar: "Como você está se sentindo?" E depois, apenas escute. Sem corrigir, sem oferecer solução, sem dizer "mas você tem tudo." Apenas escute. Você vai se surpreender com o que aparece quando alguém finalmente para pra ser ouvido.

Essas parecem mudanças pequenas, mas para um cérebro que internalizou "o celular é mais importante que eu", cada momento de presença genuína é uma reprogramação. É neuroplasticidade acontecendo em tempo real! É o início da reconstrução de algo que nenhum reforço escolar e nenhuma medicação conseguem substituir: o sentimento de ser amado de verdade!

Referências

[1] TIC Kids Online Brasil (2023). Pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil. Comitê Gestor da Internet no Brasil.

[2] Opinion Box & Mobile Time (2021). Pesquisa Panorama: Crianças e Smartphones.

[3] DataReportal (2024). Digital 2024: Global Overview Report.

[4] Lei nº 15.100/2025 — Restrição do uso de aparelhos eletrônicos portáteis em escolas de educação básica.

[5] Lei nº 15.211/2025 — Proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais.

[6] Ministério da Saúde (2025). Crianças, Adolescentes e Telas: Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais. Governo Federal.

[7] Oxford University Press (2024). Word of the Year 2024: Brain Rot.

[8] AVG Technologies (2015). Digital Diaries Study.

[9] Parental Technology Use in a Child's Presence and Health and Development in the Early Years: A Systematic Review and Meta-Analysis (2025). 21 estudos, 14.900 participantes

[10] European Child & Adolescent Psychiatry (2022). Reactive attachment disorder and disinhibited social engagement disorder in adolescence: co-occurring psychopathology and psychosocial problems.

[11] Attachment and Trauma Network. How RAD Differs from Other Childhood Behavioral Disorders.

[12] Haidt, J. (2024). The Anxious Generation: How the Great Rewiring of Childhood is Causing an Epidemic of Mental Illness. Allen Lane.

[13] Axline, V. M. (1947). Play Therapy: The Inner Dynamics of Childhood. Houghton Mifflin.

[14] Siegel, D. J. (2012). The Whole-Brain Child: 12 Revolutionary Strategies to Nurture Your Child's Developing Mind. Bantam Books.

[15] Bowlby, J. (1969). Attachment and Loss. Basic Books.

[16] McDaniel, B. T., & Radesky, J. S. (2018). Technoference: longitudinal associations between parent technology use, parenting stress, and child behavior problems. Pediatric Research, 84(2), 210–218.

Autoconhecimentocomunicacao-nao-violentadesenvolvimento-infantilDepressãoIdentidadelimites-saudaveisParentalidadeprimeiros-passos-na-terapiaressignificacaosobrecarga-maternavinculo

Precisa de apoio profissional?

Conecte-se com psicólogos licenciados, no seu ritmo e sem pressão.

Encontrar terapeuta