← Voltar ao blog
Identidade e Autoconhecimento Bem-estar e Cotidiano

Um Presente Para os Dias das Mães

Heidi Cristiana

Heidi Cristiana

Neuropsicologia

Domingo. Mesa posta. As flores chegaram, o telefone não para, alguém mandou uma mensagem no grupo da família com coração e emoji de bolo. Ela sorri. Serve o almoço. Pergunta se todo mundo comeu bem. Repete o prato do filho. Esquenta o café do pai. Lava a louça antes que alguém perceba que ela levantou da mesa.

E ninguém percebe que ela está com aquela dor de cabeça de novo.

Aquela mesma. A que aparece toda semana. A que nenhum médico encontra causa. Ela já fez exames. Já tomou remédio. Já ouviu "não tem nada, senhora" com um sorriso educado e uma receita de analgésico. Mas a dor está ali. E ela aprendeu a conviver com ela, do mesmo jeito que aprendeu a conviver com tanta coisa: em silêncio, sem reclamar, porque mãe não pode parar.

Feliz Dia das Mães.

E se essa dor não for do corpo? Quer dizer... ela é do corpo, sim. Ela é real, ela dói, ela atrapalha. Mas e se o corpo estiver dizendo algo que ela nunca teve espaço para dizer?

O dia que ninguém vê

O Dia das Mães é a data mais emocional do calendário brasileiro. Flores, cafés da manhã na cama, posts no Instagram com fotos antigas e legendas enormes. É bonito. É genuíno, muitas vezes. Mas existe um lado dessa data que ninguém posta.

Uma pesquisa de 2024 da B2Mamy com a Kiddle Pass ouviu cerca de duas mil mães brasileiras e chegou a um número que deveria estar em outdoor: nove em cada dez mães relatam algum nível de esgotamento mental. Nove em dez. Isso significa que a mãe que está sorrindo na foto do almoço de domingo, muito provavelmente, está no limite.

Um outro estudo de 2026, da Momcozy com a Postpartum Support International, mostrou que 74% das mães relegam necessidades básicas (sono, alimentação, descanso) porque alguém em casa precisava de atenção primeiro. Sempre alguém em casa precisa de atenção primeiro.

E não é só cansaço. Não é "frescura de quem reclama de barriga cheia." É algo estrutural, profundo, cultural. É a mãe que não pode adoecer porque se ela para, tudo para. É a mãe que não pode chorar porque "tem que ser forte para os filhos." É a mãe que engole o que sente com a mesma naturalidade com que engole o café frio que sobrou na xícara.

Até que o corpo decide que não vai mais engolir junto.

Imagem do artigo

Quando o corpo carrega o que a vida não permite dizer

Existe um campo da psicologia que estuda exatamente isso: a relação entre o que sentimos e o que o corpo manifesta. Chama-se psicossomática. E antes que você pense "ah, então é coisa da minha cabeça"... não... não é coisa da sua cabeça! A dor é real. O sintoma é real. O que a psicossomática nos diz é que a origem pode não estar onde os exames estão procurando.

Funciona mais ou menos assim: quando algo não pode ser dito, não pode ser chorado, não pode ser reclamado, quando não existe espaço seguro para colocar para fora o que dói por dentro... o corpo assume a tarefa de comunicar. É como se ele dissesse: "Já que ela não vai falar, eu falo."

E ele fala de várias maneiras.

A enxaqueca que aparece todo domingo antes do almoço em família. A gastrite que piora quando o telefone toca e é a sogra. A dor nas costas que nenhuma sessão de fisioterapia resolve. A insônia que apareceu quando ela passou a cuidar da mãe idosa, do filho adolescente e do trabalho, tudo ao mesmo tempo. O nó na garganta que ela engole com café.

Isso não é raro. Estudos mostram que mulheres somatizam mais do que homens, e que na América Latina essa propensão é ainda maior. Uma pesquisa da USP de Ribeirão Preto identificou que o perfil mais comum de pacientes com transtorno de somatização são mulheres com sobrecarga de responsabilidades, que frequentam emergências repetidamente, sem conseguir um diagnóstico que explique o que sentem. Elas ouvem "não tem nada" tantas vezes que começam a duvidar de si mesmas.

Mas tem. Tem algo que os exames não alcançam.

Uma psicóloga que entende profundamente esse tema, e que vive esse olhar no dia a dia do consultório, tem uma frase que resume tudo:

Aquilo que não é dito, muitas vezes, é o que mais pede pra ser escutado.

— Paolla Lopes
Imagem do artigo

Uma árvore na janela

Viktor Frankl foi um psiquiatra austríaco que sobreviveu a três campos de concentração nazistas. Perdeu a esposa, a mãe, o irmão. Perdeu tudo que uma pessoa pode perder, menos uma coisa: a capacidade de encontrar significado na dor.Nos seus últimos dias em um dos campos, Frankl conheceu uma jovem mulher que sabia que ia morrer. Ela estava nos seus últimos dias, e, no entanto, estava serena. Frankl perguntou como ela conseguia. Ela apontou para a janela do barracão e disse: "Aquela árvore ali é a única amiga que tenho na minha solidão."

Frankl, intrigado, perguntou se a árvore respondia.

Ela disse: "Sim."

O que ela diz?

"Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu sou vida."

Ela não precisou de uma solução. Não precisou de um plano de ação em cinco passos. Precisou de uma presença. De algo que dissesse: eu estou aqui, e o que você sente é real.

A Paolla entende essa história não só como leitura. Ela entende como experiência vivida.

Houve um tempo em que o corpo dela gritava o que a rotina não permitia dizer. Residência em saúde, sessenta horas por semana, aulas à noite, sozinha em outra cidade. Os medicamentos não resolviam. Porque o problema não era químico. Era a falta de espaço para existir por inteiro. Era a falta de alguém, ou de um lugar, que dissesse: eu estou aqui.

Quando ela encontrou esse espaço, algo mudou. Não de uma vez. Aos poucos. Como um músculo que se constrói noite após noite, olhando para trás e procurando ativamente o que surpreende, o que toca, o que inspira.

Hoje, a Paolla é essa presença para outras pessoas. Não uma presença que dá respostas prontas, que entrega diagnósticos como receitas, que resolve em três sessões o que levou trinta anos para se construir. Uma presença que diz: eu estou aqui, e o que você sente é real.

O que o corpo está pedindo

Se você leu até aqui e algo ressoou, talvez valha a pena se perguntar com gentileza:

Você já fez exames e "não tem nada"... mas a dor continua? Os sintomas pioram em situações específicas: reuniões de família, datas comemorativas, fins de semana? Você cuida de todos, mas quando foi a última vez que alguém cuidou de você? Quando alguém pergunta "como você está?", a resposta sai no automático: "Bem"... mesmo quando não está?

Se você se reconheceu, isso não significa que você está inventando a dor. Significa que o seu corpo está fazendo o trabalho que deveria ser dividido com a palavra. Que existe um caminho que não passa por mais exames, mais remédios, mais "não tem nada, senhora." E que esse caminho começa com um espaço onde você possa dizer o que nunca disse.

Não precisa ser dramático. Não precisa ser um grande discurso. Às vezes, começa com uma frase simples que nunca teve onde pousar:

"Eu estou cansada."

"Eu não estou bem."

"Eu preciso de ajuda."

Eu estou aqui

O Dia das Mães celebra a mãe que cuida. Mas quem cuida de quem cuida?

Às vezes, a resposta não é um presente, uma flor ou um café da manhã na cama. Às vezes, o presente mais honesto que alguém pode dar ou receber é um espaço de escuta. Um espaço onde a dor não precisa ser engolida. Onde "não tem nada" não é a resposta final. Onde alguém olha para você e diz, de verdade: eu estou aqui.

O corpo fala. A pergunta é: alguém está ouvindo?

Se o que você leu aqui tocou em algo que você sente, ou que alguém que você ama sente, considere esse artigo o presente.

Não para o Dia das Mães.

Para todos os dias depois dele.

Se você busca um espaço de escuta para o que ainda não foi dito, a Paolla é psicóloga clínica com formação em psicanálise e experiência em saúde da família e comunidade. Ela atende crianças, adolescentes e adultos.

A história de Viktor Frankl e a jovem mulher no campo de concentração é relatada no livro "Em Busca de Sentido" (Man's Search for Meaning), originalmente publicado em 1946. Os dados sobre burnout materno no Brasil são do relatório "Burnout Parental" (B2Mamy + Kiddle Pass, 2024) e do relatório "As Verdades da Maternidade" (Momcozy + PSI, 2026).

acolhimentoAutoconhecimentoAutoestimaIdentidademaes-atipicasParentalidadeRelacionamentosressignificacaosaude-emocionalsobrecarga-materna

Precisa de apoio profissional?

Conecte-se com psicólogos licenciados, no seu ritmo e sem pressão.

Encontrar terapeuta